Crítica após 20 anos: como Harry Potter e o Cálice de Fogo se limitou a ser meramente mediano

Assistimos novamente Harry Potter e o Cálice de Fogo para uma análise crítica após 20 anos de seu lançamento e o resultado você confere agora.

Poster de Cálice de Fogo

Como já virou tradição no Mundo Bruxo, sempre que um filme de Harry Potter completa duas décadas, publicamos nossa análise com visão crítica e olhar atual sobre a produção. Dessa vez, é a hora de entender como Cálice de Fogo se sai nesse desafio.

Se quiser, veja também nossas críticas sobre Pedra Filosofal, Câmara Secreta e Prisioneiro de Azkaban. Então vamos lá, antes tarde do que mais tarde, para a análise de Harry Potter e o Cálice de Fogo 20 anos após o lançamento.

Crítica: Harry Potter e o Cálice de Fogo após 20 anos

Cálice de Fogo representa um momento de grande evolução na saga Harry Potter em muitos sentidos. Até Prisioneiro de Azkaban, o mundo bruxo que acompanhamos se organiza mais como uma cidade do que como uma comunidade global: a escola, a rua de compras, o banco, a vila… Então, chega o quarto capítulo da saga, escrito em um momento em que Harry Potter já era um fenômeno literário. Foi o momento da série realizar sua própria expansão internacional e dialogar com diferentes culturas, de deixar o recado que, seja você de onde for, o mundo mágico de Harry Potter também é para você.

São muitos eventos e momentos marcantes que faziam com que a expectativa dos fãs para o quarto filme fosse enorme. Mas, na adaptação para os cinemas, o movimento não era exatamente crescente: Prisioneiro de Azkaban havia trazido o pior resultado financeiro até então e, hoje aclamada, a direção de Alfonso Cuarón no terceiro filme dividiu opiniões. Cuarón recusou o cargo e, então, coube a Mike Newell a tarefa de executar um escopo maior, porém com um orçamento não tão maior assim.

O diretor, experiente na TV britânica e vencedor do BAFTA por Quatro Casamentos e Um Funeral (1994), se esforçou bastante para entregar uma experiência satisfatória com o incremento de 15% no orçamento em relação ao antecessor. Saber essa informação, se não justifica, ao menos ajuda a explicar o porque de tantas concessões em partes importantes da história.

Ritmo rápido e início frustrante

Harry Potter e o Cálice de Fogo já começa dando o pontapé para algo que seria sintomático nos filmes da franquia a partir daqui: a falta de desenvolvimento do vilão. O prologo, que no livro retrata um pouco sobre o passado da família Riddle, aqui nos leva direto em uma cena que parece estar lá apenas para dar pistas ao expectador: este será o vilão (e ele é mal). Não se surpreenda quando ele e seus comparsas reaparecerem.

Então, já temos indícios dos caminhos que o filme vai tomar. Cortes rápidos e apenas o essencial em cena para passar o recado: já estamos na Toca, sem Dursleys dessa vez, e nem mesmo Molly Weasley está por aqui. Mas temos este jovem, Cedrico, ele será importante para a história e… já estamos partindo, pois vamos à Copa Mundial de Quadribol.

Quando o contador marca 10 minutos de filme, oito capítulos do livro já foram despedaçados. Diversos novos personagens e subtramas ficaram de fora para a história seguir em frente, mas nada se compara à aguardada final do campeonato de Quadribol. O corte, exatamente quando a partida vai começar, parece um protesto do próprio filme contra a falta de recursos (ou de tempo) para executar a cena que todos esperavam. É um momento de frustração tão previsível que chega a ser cômico terem seguido com isso.

A Copa Mundial se resume a introduzir Krum: outro jovem que será relevante para a trama, mas que logo após sua apresentação é chamado de “bobão” pelos gêmeos Weasley. Você não sabe por que e nem saberá pois – spoiler – ele praticamente não terá desenvolvimento no filme.

E assim Cálice de Fogo encerra seu primeiro grande arco: com um ataque de Comensais da Morte que soa desproporcional. Um grupo aparentemente pequeno de bruxos das trevas rapidamente transforma em terra arrasada um evento internacional com dezenas de milhares de bruxos. O motivo para isso pouco importa.

Muitos chavões e decisões ruins

De volta a Hogwarts, somos apresentados ao verdadeiro destaque deste episódio: o Torneio Tribruxo. Dumbledore, que nesse filme está na sua pior versão em toda a saga, introduz a competição junto de Bartô Crouch, um funcionário do Ministério. Hogwarts recebe os estudantes de Durmstramg e Beauxbatons, uma escola só para meninos maus e a outra só para meninas ingênuas. Ao menos é esse o chavão que o diretor transmite com uma das mais descabidas decisões em toda a saga. Se você não leu o livro: ambas as escolas são para bruxos e bruxas (e não faria o menor sentido lecionar para apenas um gênero).

E são chavões como esse que permeiam toda a produção. Temendo não conseguir contar a enorme história em tão pouco tempo, Newell apela para exageros e lugares comuns para assegurar a mensagem. Um exemplo é o desnecessário (mas divertido) tique nervoso que escancara o vilão. Outras cenas são colocadas para fomentar um mistério sem muito fundamento, como Karkaroff entrando sozinho à noite na sala do Cálice.

Enquanto isso, protagonistas da história e participantes do torneio são deixados de lado. O filme não se esforça em desenvolver no público a simpatia por Fleur, Krum e Cedrico, muito menos a vontade de torcer por eles no torneio.

Entre cenas primorosas e magia racionada

Em meio a tantas críticas, há de se ressaltar o trabalho de efeitos especiais que produziu grandes momentos em Cálice de Fogo. A primeira tarefa do Torneio Tribruxo é essencialmente isso: uma liberalidade na história para entregar uma fuga do dragão que é divertidíssima e muito bonita de se ver até hoje. (Tão bela que a gente até se esquece que ela não faz nenhum sentido… Como ninguém foi ao resgate de Harry, oras?)

Já a segunda tarefa teve um trabalho de produção absurdo que merece ser reconhecido. A forma como toda a cena é gravada, debaixo d’água, impressiona e o resultado é muito bom. É uma fantástica combinação de efeitos digitais e práticos que constrói perfeitamente o lago de Hogwarts.

Os artefatos mágicos também chamam a atenção, assim como a caracterização de Moody, um pouco diferente da descrita nos livros. A sensação é que Mike imprime um estilo mais mecânico e artístico à magia. Ele automatiza objetos trouxas como malas, microfones e pernas mecânicas e usa artes circenses, como malabarismo e acrobacia, e até capoeira como forma de transmitir o inusitado. Os figurinos e cenários também são carregados, como no Baile de Inverno: um ambiente que passa a sensação de ser mágico, mesmo sem nenhuma feitiçaria.

A magia é mais racionada: o diretor pesa mão em efeitos digitais somente nas grandes cenas e alterna com uma enxurrada de momentos sem nenhuma dose de encantamento. Até o teto do salão principal perde o feitiço de céu ao final deste filme. Isso contrasta com o estilo de Prisioneiro de Azkaban, onde quase sempre havia algo mágico em primeiro ou segundo plano.

Com tanta história, é compreensível ter que escolher onde investir recursos. Mas a dúvida que fica é se as escolhas foram corretas. Será que vale mesmo a pena abrir mão de ver todos os competidores realizando a primeira tarefa em função de ver Harry fugir do dragão? Não seria melhor manter o clima de competição desenvolvendo mais cada personagem?

Mais um caminhão de frustrações

Sem explicar as regras, pontuações e aprofundar nos competidores, o filme caminha para seu arco final com ares de que sequer houve uma disputa. Logo após a segunda tarefa, entendemos por que Bartô Crouch não foi limado do roteiro, como tantos outros personagens: ele precisava estar lá para bater com as botas e, assim, dar pistas da existência de um vilão em Hogwarts. Mas a essa altura o próprio filme já havia entregado o mistério de bandeja ao expectador com o tal tique nervoso enfadonho e somente uma pessoa muito desatenta se surpreenderia com o seu desfecho.

Chega a última tarefa e, mais uma vez, a restrição orçamentária dá as caras, retirando da história todas as criaturas e momentos que tornariam esta tarefa mais difícil do que as outras. O que vemos no torneio é anticlimático: começa com uma primeira tarefa no auge da empolgação mas termina com uma etapa derradeira que é a mais sem graça, um mero labirinto de sebes.

Na única oportunidade real que temos de ver a performance de outros participantes, Fleur apenas grita e Krum está visivelmente possuído pela maldição Imperio (mesmo com o próprio filme ressaltando a dificuldade em reconhecer alguém sob o efeito da maldição). Então, podemos ver o favorito à vitória chegar à taça sem grande esforço: sim, Cedrico Diggory que, com toda sua vasta experiência, nos brinda abatendo Krum com um poderoso… expelliarmus. É sério isso?!

O ápice de um filme…

Todos os louros de Harry Potter e o Cálice de Fogo ficam por conta de seu final. Mais fiel ao livro do que as demais passagens, o retorno de Lord Voldemort é uma enorme virada para o longa (e para a saga). Ralph Fiennes está impecável e confere um estilo amedrontador ao vilão. Era a primeira vez que víamos Voldemort em cena.

Tudo no cemitério é incrível. O ritual convence e a reconstituição do corpo de Voldemort é tão macabra que faz inveja a muito filme de terror. Comenta-se que o visual do vilão até foi suavizado pois estava assustador demais com os olhos vermelhos descritos no livro. A primeira interação entre Harry Potter e Voldemort é muito bem explorada, contrastando com tudo o que assistimos até aqui.

O desespero de Harry na volta a Hogwarts agarrado ao corpo de Cedrico, com a fanfarra da escola em ritmo alegre, destoante, e o primeiro grito verdadeiramente cabido de Fleur coroam o desfecho. Newell conclui o torneio com dramaticidade impecável, que só não é mais dolorosa porque Cedrico também foi mal desenvolvido e ninguém se importa com ele.

…com histórias demais

A verdade é que Harry Potter e o Cálice de Fogo é, possivelmente, o capítulo da saga que mais merecia ser dividido em dois filmes. São muitas tramas e subtramas, sem contar as que ficaram totalmente de fora da adaptação. Isso dificulta a fluidez da narrativa. Quando você pensa que acabou, ainda há a aborrecida revelação de Bartô Crouch Jr como Moody acompanhada por um “mostra o seu que eu mostro o meu”, que é auge da vergonha alheia na saga, e o bom discurso de final de Dumbledore.

A expansão do universo, que faz todo o sentido no livro, parece um passo maior do que a perna para o formato filme. São muitos novos atores, locações, cenografia e figurino disputando pelos mesmos recursos e são tramas e subtramas batalhando por tempo de tela.

Assim, a produção se limita a contar a história como consegue e acaba por se perder em alguns momentos. Rita Skeeter aparece e some como quem não quer nada, assim como o romance de Hagrid e Madame Maxime ou as suspeitas sob Karkaroff. Hogwarts está muito enxuta e parece que todos são da turma de Harry. De repente, quase nem há mais crianças na escola.

Mas tudo isso é processado em sequencia, com as cenas absurdas do cemitério e da perseguição do dragão elevando enormemente a percepção sobre esse filme. A questão é que a história de Cálice de Fogo é tão feita para divertir que mesmo com uma entrega fraca e recheada de decisões ruins, Mike Newel não consegue entregar algo totalmente ruim. Parte, é claro, é mérito dele, com momentos muito bem executados. Outra parte é apenas consequência da história que já veio pronta.

Quando vi Cálice de Fogo no cinema, na estreia, fiquei com a sensação indigesta de que o filme ficou me devendo muita coisa. Hoje, 20 anos depois, a impressão é tão somente de que a dívida acumulou 20 anos de juros.

Nota: 6,5/10.


Comentários

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Uma resposta para “Crítica após 20 anos: como Harry Potter e o Cálice de Fogo se limitou a ser meramente mediano”

  1. Avatar de Deni

    Menção honrosa a Carlinhos Weasley, que no livro teve papel importante nos bastidores da primeira tarefa do Torneio Tribruxo, e no filme sequer aparece. No mais, concordo com as críticas e elogios. Mesmo com todos os defeitos, ainda assim, conseguiram entregar um filme ao menos divertido.




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