Há algumas semanas anunciamos que a Warner firmou acordo com a Netflix para vender suas divisões de filmes e streaming, incluindo o HBO Max e franquias como Harry Potter, os heróis da DC, Game of Thrones, entre outros clássicos. Mas, em uma reviravolta digna de filme de Hollywood, a Netflix desistiu do negócio e é a Paramount quem acabou arrematando a empresa.
Então, vamos agora analisar o desenrolar das negociações e como a compra da Warner pela Paramount deve impactar na série Harry Potter e em tudo que envolve o mundo bruxo. Mas antes precisaremos entender como tudo aconteceu e quem são os envolvidos.
Como foram as negociações entre Warner, Netflix e Paramount
O pontapé para a venda tem início com ofertas feitas nos bastidores pela Paramount para adquirir a Warner, antes de outubro de 2025. Isso mobiliza a Warner a se colocar à venda, atraindo interesses da Comcast e da Netflix, que vence a disputa e divulga em 5 de dezembro de 2025 o acordo para para adquirir as divisões de streaming e estúdios da Warner por 82,7 bilhões de dólares (US$ 27,75 por ação).
Interessada em todo o conglomerado da Warner, que inclui também os canais de TV da Discovery, CNN e TNT, a Paramount inicia uma disputa que duraria meses:
- O contra-ataque: Em 8 de dezembro, a Paramount Skydance apresenta uma oferta hostil (feita diretamente aos acionistas, ignorando o comitê executivo da Warner) de de US$ 108,4 bilhões (US$ 30 por ação), mas o conselho da Warner recusa alegando insegurança à capacidade da Paramount financiar a operação.
- Meu pai vai pagar: para provar que tinha como pagar a conta, a Paramount anuncia em 22/12 que o bilionário Larry Ellison, pai do CEO da Paramount e dono da gigante de tecnologia Oracle, deu uma garantia de mais de US$ 40 bilhões para custear o negócio, mas a Warner novamente rejeita. A Paramount se irrita e inicia disputas judiciais para forçar a Warner a revelar os termos do acordo.
- Novas cartas no jogo: em 10 de fevereiro de 2026 a Paramount então melhora sua oferta, prometendo cobrir a multa do destrato com a Netflix (US$ 2,8 bilhões), entre outros compromissos. A Warner recusa novamente, mas cede e abre prazo de 7 dias para a Paramount apresentar sua melhor proposta final.
- O ataque final e a vitória da Paramount: em 24 de fevereiro a Paramount apresenta sua derradeira e robusta oferta: US$ 31 por ação + cobertura de multas rescisórias + garantia de pagar US$ 7 bilhões à Warner caso o governo barre a fusão no futuro. Sem saída, a Warner aponta a proposta como superior e inicia prazo para que a Netflix iguale os termos. Em 26 de fevereiro, a Netflix desiste do negócio, afirmando que deixou de ser financeiramente atrativo por este valor.
Quem é a Paramount Skydance e as controvérsias da fusão
Pode-se dizer que a Paramount é pelo menos tão reconhecida quanto a própria Warner. A centenária dos cinemas foi responsável por clássicos que vão de O Poderoso de Chefão (1972) a Titanic (1997). Além disso, dominou a TV por assinatura com emissoras como MTV e Nickelodeon. Mas a queda de audiência nas TVs e o aumento nos custos de produção fizeram a montanha estrelada se afundar em uma avalanche de dívidas.
Isso abriu espaço para que em 2024 a Skydance, uma produtora moderna de Hollywood que desde os anos 2000 já financiava filmes da Paramount, fizesse uma oferta para adquiri-la. Assumindo o comando dos estúdios, David Ellison, filho do bilionário da Oracle, injeta capital e promove reestruturações. Ele estanca as dívidas, mas é tudo muito recente e a empresa hoje ainda não apresenta lucro.
No meio de tudo isso, surge a compra da Warner. O novo negócio envolve empréstimos astronômicos e injeções enormes de capital de fundos soberanos da Arábia Saudita e do Qatar gerando preocupações sobre o controle estrangeiro sobre a imprensa estadunidense (lembrando que a CNN está no pacote). Por outro lado, Hollywood se mostra mais favorável à compra pela Paramount, pois vê na Skydance maior proximidade com o modelo tradicional de cinema.
O que muda com Harry Potter e coma série do HBO Max indo para a Paramount?
Ainda é muito cedo para ter certeza mas podemos afirmar com bastante convicção que a série Harry Potter está garantida. Primeiramente porque a produção vai de vento em poupa, com lançamento previsto já para o ano que vem. A produção é a principal aposta da Warner para streaming e campeã em licenciamentos para os próximos anos. Contudo, é possível esperar que, ao longo do tempo, as decisões da nova empresa comecem a pesar sobre as produções.
Maior investimento = mais pressão por resultados
A situação financeira do novo conglomerado é um grande motivador de decisões e a brincadeira saiu bem mais cara do que foram as ofertas iniciais da empresa. A Paramount atualmente não dá lucro e vai ter bons empréstimos para pagar, além de investidores pressionando por retorno. Com isso, é natural que haja forte pressão por resultados, que não necessariamente vão ser reinvestidos na produção.
Produções mais eficientes e menos artesanais
O maior temor dos entusiastas do cinema era de que a Netflix trouxesse sua cultura de big tech para a Warner, com produções baseadas nos algoritmos e no objetivo de reter assinantes. Já com a cultura de cinema da Skydance, podemos esperar mais artes, mas não menos influência do choque da gestão.
A Paramount Skydance deve promover mudanças focadas na eficiência de produção, visando menores custos por episódio. Isso pode significar desde elencos mais enxutos e menos locações, passando por roteiros com mais diálogos e menos ação, podendo haver até a adoção de IA na produção. Tudo, claro, vai depender do sucesso que a série tomar render. É possível que eles optem por deixar tudo como está, caso seja um sucesso comercial, mas também não me surpreenderia se algo mudar no caminho.
Menos spin-offs e maior zelo pela franquia
Por outro lado, a Netflix é mestre em fazer spin-offs (produções derivadas) e fazer propriedades intelectuais renderem o máximo que podem, às vezes levando-as ao desgaste. A diversificação é algo que a própria Warner vinha cedendo, desde Animais Fantásticos até produções especiais para streaming, mas a Paramount pode mudar isso. A empresa costuma ser mais conservadora com seu acervo e zelar pelos clássicos. Por outro lado, quem vemos hoje não é a mesma Paramount do século passado e, com a nova gestão, isso pode estar mudando.
O que muda e o que não muda com Harry Potter indo para a Paramount?
- Produção da série Harry Potter: deve continuar normalmente, já que está sendo conduzida pela Warner e em etapas avançadas de gravação da primeira temporada.
- Licenciamento de produtos: deve continuar em alta, pois já é parte do modelo de negócios da Paramount, inclusive com mais atuação do que a Netflix.
- Parques temáticos de Harry Potter: deve permanecer como é, pois os parques têm contrato de longo prazo com a Universal.
- Streaming: deve mudar: o HBO Max é consideravelmente maior que o Paramount+, mas eles se sobrepõem e podemos aguardar mudanças ou fusões nessa área. Pode até acontecer licenciamento de filmes para outros streamings, coisa que a Paramount costuma fazer.
- Novas produções de Harry Potter: ainda é cedo demais para saber…
É melhor Harry Potter ir para Paramount do que a Netflix?
Não há uma escolha melhor ou única. Se a gente for se apegar ao histórico da Warner e ao zelo que eles demonstram pela série Harry Potter, o melhor mesmo é que ela não fosse vendida. Mas já que tem que ser, são caminhos diferentes. O máximo que podemos é especular e torcer para que Harry Potter esteja em boas mãos e a série tenha um futuro promissor.





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